Faz hoje uma semana que regressei a Portugal mas ainda estão na minha memória algumas das peripécias da viagem de regresso. Uma delas é um retrato fiel de como um país africano funciona, pelo menos
Angola. Não faz sentido um aeroporto encerrar pelo simples facto de o seu presidente também ter um voo à mesma hora que outros.

Cheguei cedo ao aeroporto, pela simples razão de ser o fim-de-semana anterior às eleições. Apercebi-me que a fila para entregar a bagagem, com o check-in feito pela net, estava mais lento que a fila para o check-in feito no aeroporto. Como era isto possível? Ah, pois é, não tinham sistema e então tinha que ser à mão. Ok, acontece.

Ao fim de uma hora (e era só para despachar as malas) lá chego ao balcão. Depois chegam as 9 horas, altura de o avião partir (!) e ainda nem tinhamos sequer embarcado. Depois apercebo-me da carrada de militares presidenciais (fardados e à paisana, alguns com metralhadores maiores que eu) que estavam distribuidos ao longo da pista e perto dos aviões comerciais. Havia também uma passadeira vermelha que se estendia desde um local onde mais tarde estacionou um carro e um jacto privado.
Ou seja, o presidente ia voar, para Malange, segundo constava, e portanto, fazia todo o sentido fechar o aeroporto, nenhum avião descolava ou aterrava. E pronto, lá estivemos 4 horas à espera que as coisas normalizassem para que o avião pudesse descolar. Ah, e o engraçado era a comitiva do presidente, que ficou em filinha, até o avião do presidente descolar, a fazer adeus. E com reportagem vídeo e tudo! Um aparato desgraçado. Mas pronto, parece que é normal.

O dia até me estava a correr bem (onde é que eu já ouvi isto?) até ao momento em que chego ao meu lugar, o fabuloso 20J (à janela). Assim que lá chego, está um senhor com o seu farfalhudo bigode e com a camisa de mangas curtas desabotoada no peito, sentado no meu lugar. Digo-lhe que está sentado no meu lugar e ele começa logo a resmungar: "Pronto, pronto, saio já, sente-se lá no seu lugar", etc etc. Ele levanta-se, eu tiro as coisas que preciso da mochila, não consigo e sento-me no meu lugar com a mochila para deixar passar a fila de pessoas que esperava impacientemente. Depois lá tiro as coisas que preciso e digo ao senhor que tenho que me levantar outra vez, estando já ele sentado ao meu lado. Pronto, tudo estragado, começou logo a mandar vir "Não pense que agora vou estar sempre a levantar-me! Não estou para isso! É preciso respeitar para ser respeitado!", etc etc.

Esta vai ser uma viagem e pêras...de 8 horas",pensei eu. Ele depois não resmungou mais quando lhe dizia que tinha que me levantar.. parece que ter dormido ajudou. Mas, como se esta cena não bastasse, ainda tive que gramar o cheiro do senhor, e do seu hálito, enquanto dormia de boca aberta. Mas isto até é suportável até ao momento em que, no final da minha divinal refeição de avião, comecei a sentir um odor muito estranho... eram mesmo
peidos, com um trago a enxofre... nem o cobertor que coloquei até ao nível do meu nariz me safou. Ainda se tivesse sido uma vez, mas NÃO!! Foram 3 agoniantes vezes ao longo da viagem. O senhor até pode ter problemas de flatulência, tal como o Pinto da Costa, mas essas pessoas podiam ter umas cadeiras no avião isoladas dos outros passageiros.